Olá. Hoje em "fotógrafos", vamos falar sobre Evgen Bavcar, um fotógrafo, filósofo e cineasta esloveno que nos ensina que a fotografia não se trata apenas de congelar uma imagem que nos agrada, mas sentir cada pequeno detalhe, e guardá-los conosco, fazendo parte de nós. fotografar, sobretudo, é sentir.
Fonte: Evgen Bavcar
Bavcar sofrera 2 acidentes consecutivos que fizeram com que o mesmo perdesse completamente a visão, antes mesmo de completar 12 anos de idade. 4 Anos após tal acontecimento, ele teve contato, pela primeira vez, com a fotografia, registrando a imagem de uma menina pela qual era apaixonado.
Fonte: Evgen Bavcar
" Minhas imagens são frágeis, eu nunca as vi, mas sei que elas existem, e algumas delas me tocam profundamente só de ouvir falar "
Fonte: Evgen Bavcar
Com a ajuda de sua irmã mais velha, Evgen desenvolveu técnicas para capturar imagens, por exemplo o alto contraste - composição da luz em lugares completamente escuros. Para fotografar, Bavcar utilizando as mãos, marca a distância entre a câmera e os objetos, no caso de retratos, guiado pelas vozes procura perceber a altura ideal para cada rosto, como ele diz " Eu fotografo contra o vento ". Que, segundo Nelson Brissac, filósofo e crítico de arte, significa que o vento traz o cheiro de cada pequena coisa, os ruídos... indicando onde cada coisa se encontra e como elas " são " .
Fonte: Evgen Bavcar
Abaixo, podemos conferir pequenas partes de algumas entrevistas com o fotógrafo, onde a mesma pode ser lida inteira nos seguintes sites:
Entrevista feita pela jornalista Lucrecia Zappi
Fonte: Evgen Bavcar
" Ficou cego instantaneamente? Vê ainda alguma coisa? Vultos? "
Bavcar: " A cegueira chega pouco a pouco. Foi um adeus longo, de oito meses. Tive tempo de por em minhas caixas de recordação muitas coisas. Oito meses é pouco e é muito. É importante dizer adeus. É como abandonar uma mulher bonita numa estação de trem. O trem que vai para um túnel, onde, no fundo, há uma pequena luz. Essa luz é a do espírito, da interioridade. Esta é uma experiência muito pessoal que agora revivo por causa do meu trabalho com cores. "
" O senhor tem memória das cores? "
Bavcar: " A cor chega de longe. Sim, todas. Tenho uma palheta das cores da minha terra natal. Do que vi na minha infância. Faço um sistema de referências com essas cores. Posso associá-las a outras descrições. Por exemplo: é verde como a erva ao lado do rio durante a primavera, é castanho como o objeto da minha infância, é branco e cinza como uma determinada pedra que me lembro. Ou seja, minha palheta de cores das percepções das coisas da Eslovênia. Com esta palheta eu posso colorir todo o mundo. "
Fonte: Evgen Bavcar
" O senhor também se encontra face a face com a memória? "
Bavcar: " Eu estou verdadeiramente face a face com as imagens da minha infância e posso falar dessas imagens com as pessoas da minha cidade, mas não das mesmas imagens, por pertencerem a uma memória muito pessoal. É uma memória da transcendência e imanência do meu corpo. Se outra pessoa me descreve uma foto, esta foto está em transcendência através do olhar do outro. Se eu fotografo uma pessoa, eu não verei nenhuma vez essa foto diretamente, e isso significa que essa foto é de uma trancendência inacessível, porque não é profanada com o meu olhar. Pode vir a ser profanada com o olhar dos outros, mas não com o meu olhar. Compreende isto? Sempre no invisível, sem o olhar físico. Com o terceiro olho eu vejo, mas não com estes olhos. "
Fonte: Evgen Bavcar
Bavcar: " Com as palavras dos outros. Para mim, as fotos pertencem a uma inutile beauté, uma beleza inútil. Não sou um consumidor direto, e isso me dá a força da transcendência imediata. O escritor e crítico de arte inglês John Berger comparou minhas fotos com as pinturas feitas nas tumbas do Egito. Minhas fotografias não foram criadas para as tumbas – para minha tumba sim, porque não as vejo –, mas para os olhares físicos dos outros. Nesse sentido, ligam-se à minha transcendência somente como idéias."
"Pode-se dizer que o senhor fotografa através dos olhos dos outros? É isso que o leva a fotografar algo ou alguém?"
Bavcar: " Minhas fotografias só existem para mim enquanto existem para os outros. A palavra de outros olhos me conta a realidade física de minhas fotografias. Conheço somente suas realidades conceitual e espiritual, reveladas por meu terceiro olho, com o qual eu fotógrafo."
"O senhor também faz cinema. A fotografia é estática e o cinema uma seqüência de imagens em movimento. Como o senhor trabalha com essa diferença?"
Bavcar: " Vi somente dois filmes em minha infância: Branca de Neve e um western. Como disse um teórico austríaco, o cinema é fotografia em movimento. Então, eu começo a imaginar fotografias que se movem. Mas me lembro também desses dois filmes. É difícil para mim fazer contatos com pessoas do cinema porque existem muitos preconceitos, não encontro produtores. Então fiz alguns filmes por minha conta, pois quero fazê-los com minhas palavras, não com as palavras dos outros. Além disso, todos os cegos do cinema padecem das imagens-clichê e não gosto disso. Sou contra, porque é mais fácil mostrar o cego como um voyeur comum. E eu sou um voyeur absoluto, essa é a diferença. Veja aquele filme que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, Dancing in the Dark (Dançando no Escuro), de Lars von Trier. Todos os jurados neste caso, devo dizer, foram muito cegos. O filme é puro clichê sobre os cegos, um melodrama kitsch."
"Luz e sombra, o preto e o branco, são as motivações básicas de sua fotografia. Considerando que sua última visão foi uma paisagem colorida, por que o senhor não faz fotos em cores?"
Bavcar: "Porque as fotos em cores são muito caras, sobretudo se for fazê-las em grandes dimensões. De todo modo também posso fazer fotos em cores, conheço as cores. Mas a cor é muito complicada. Quer dizer, posso estudá-la em um sistema matemático, de espectro físico, e nesse caso é fácil. Você me diz: eu te dou tantos por cento de azul e tantos por cento de amarelo, e então posso combinar rapidamente a cor em minha cabeça. Isso com a cor em sistema físico, mas não a cor como matéria. Sei disso porque tenho amigos pintores, e fazer as cores como matéria é mais difícil do que fazê-las com a cabeça. Esse é o problema. As cores me acompanham sempre, apenas prefiro, quando alguém me descreve, por exemplo, o azul do Sena, que me diga que é um azul com tantos por certo desta ou daquela cor." Bavcar: "Porque as fotos em cores são muito caras, sobretudo se for fazê-las em grandes dimensões. De todo modo também posso fazer fotos em cores, conheço as cores. Mas a cor é muito complicada. Quer dizer, posso estudá-la em um sistema matemático, de espectro físico, e nesse caso é fácil. Você me diz: eu te dou tantos por cento de azul e tantos por cento de amarelo, e então posso combinar rapidamente a cor em minha cabeça. Isso com a cor em sistema físico, mas não a cor como matéria. Sei disso porque tenho amigos pintores, e fazer as cores como matéria é mais difícil do que fazê-las com a cabeça. Esse é o problema. As cores me acompanham sempre, apenas prefiro, quando alguém me descreve, por exemplo, o azul do Sena, que me diga que é um azul com tantos por certo desta ou daquela cor."
Fonte: Evgen Bavcar
" Narciso morreu afogado porque não compreendeu que entre ele e a imagem existe a água. Eu sei que entre eu e a imagem há o mundo, há a palavra dos outros, uma grande distância. "
Fonte: Evgen Bavcar
" Para mim, os cegos representam o único grupo que ousa olhar o Sol diretamente nos olhos "
Fonte: Evgen Bavcar
Talvez possamos pensar em olhar tudo o que vemos e ver tudo o que olhamos, não apenas como seres humanos que olham, veem um olhar, mas como sentimentos, sentidos, sensações que nascem e renascem todas as vezes que o que vemos e olhamos passa a ter um significado maior do que simples olhares perdidos ao vento de uma esquina qualquer.
Referências:






